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Um livro de livre interpretação é incapaz de conter
verdades absolutas. |
A Bíblia não é um livro de livre interpretação! Apesar de muitos crerem desta forma, a própria estrutura, na qual se apoiam os textos sagrados, ressoa gravemente a falha lógica de argumentar que este livro pode ser interpretado de qualquer forma.
Ora, se a Bíblia fosse, realmente, um livro de livre interpretação, então seria como um amontoado de versículos sortidos, onde o versículo anterior não tem relação nenhuma com o que lhe procede e, isto, de maneira nenhuma pode ser verdadeiro, pois não poderíamos conhecer a história bíblica desse modo.
Se a interpretação for livre, quem sabe por quais caminhos a mente humana nos fará caminhar? Encontrará alusões ao acidente de trânsito ocorrido em nossa esquina, à morte prematura de nosso vizinho e até ao acúmulo de riquezas terrenas desejadas por qualquer ser humano. Aliás, existe alguém que não gostaria de ter ou receber um pouco mais do que recebe, hoje em dia? É, exatamente, por esse motivo que temos uma gama de pessoas alegando que o objetivo da vida cristã é ser próspero, no sentido de ficar rico! E isso tudo, segundo o que leem e da forma como interpretam as Escrituras. No entanto, quem se propõe a ler as Escrituras de gênesis à apocalipse pode, facilmente, constatar que este nunca foi o propósito dos textos bíblicos...
Nenhum livro deve ser interpretado segundo os pré-conceitos oriundos do leitor, pois, de modo nenhum, refletiriam o pensamento do autor.
O único modo de descobrirmos qual foi o objetivo do autor ao escrever um determinado livro, está no fato de analisá-lo, despindo-se de todas as idiossincrasias que possuímos, mergulhando nos textos a fim de tentar compreender, mesmo que simploriamente, a mente do autor.
Só assim podemos compreender qual é a proposta do livro, segundo o raciocínio do autor. No entanto, se analisamos o livro segundo nossos próprios conceitos, interpretaremos os textos segundo nosso padrão de raciocínio, sem levar em consideração coisas básicas como o vocabulário da época, a cultura na qual o texto está inserido, o valor das expressões idiomáticas no contexto original, entre outros inúmeros argumentos que são melhores elucidados na obra de Roy Zuck, quando ele se refere aos abismos que estamos propensos a enfrentar ao ler, por exemplo, os textos bíblicos.
Ora, se pudermos concordar que a mente humana é incapaz de conceber o que é certo para si pela simples análise da maioria das nossas decisões, como poderíamos ser capazes de ler um texto de livre interpretação e, por fim, obter dele, como resultado, a melhor resposta? Apenas através do acaso, chegaríamos a algum tipo de resposta aceitável.
Além dos fatores acima descritos, poderia citar apenas mais um que considero de extrema importância e que deve ser levado em consideração com relação à livre interpretação da Bíblia.
A livre interpretação, na maioria das vezes, adequa o pensamento bíblico a nossa forma de ler e interpretar as Escrituras, fazendo com que o texto reflita o que desejamos que ele diga ou, pelo menos, o que o fruto do nosso raciocínio elaborou. Geralmente, o texto se alinha ao modo de pensar e agir do leitor que faz a interpretação livre, mesmo que este obtenha como resposta aquilo que ele necessita corrigir. Se as Escrituras, sempre que as lermos, retornarem como resposta padrão o fruto do nosso raciocínio, se não há em suas páginas nada que seja contrário ao nosso modo de pensar, este livro é desnecessário e tende à inutilidade. Se a resposta do livro concorda com nossos pensamentos em gênero, número e grau, para que devemos lê-lo se o mesmo não nos acrescenta nada? O que o torna indispensável se ele apenas reflete o que já está enraizado em nós? Se tudo o que lemos perfaz o nosso modo de pensar e agir, não há razão para ler o livro, pois nada nos acrescentará!
Somente é aproveitado pela nossa mente o livro que nem sempre se alinha com nosso modo de pensar e agir, livro este que nos contraria e nos faz refletir, que nos lembra que nossas decisões precisam ser limadas, que nossas linhas de ação definidas são imperfeitas e imprecisas, recordando ao leitor aquilo que não perfaz a sua decisão óbvia.
Vou mais além, somente um livro que expressa verdades absolutas tem profundo significado para qualquer ser humano, pois aquilo que é relativo tem apenas valor geo-temporal, é válido para um determinado local e refere-se somente a um tempo pré-definido. A nível cultural é excelente, mas para pouco se aproveita. No entanto, se a verdade ensinada é imutável, se o princípio aprendido é capaz de desvendar os mistérios da mente humana, descrever aspectos tão singulares do comportamento humano e elucidar questões universais, este livro, sim, deve ser respeitado, levado a sério e ser objeto de estudo que norteia nossas ações.
Um livro de livre interpretação é incapaz de responder às verdades absolutas, mas se o livro não é de livre interpretação, antes perfaz a expressão de vontade, revelação, consciência e sabedoria superiores a quaisquer outras estudadas, este livro, sim, pode revelar verdades absolutas se compreendido a partir daquele que revela a singularidade dos textos.
Escrito por Ricardo Inacio Dondoni